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Archive for the ‘Estrada’ Category

Fotos Anamaria Rossi

No início do verão resolvi fazer uma visita ao Monastério de Montserrat, a padroeira da Catalunha. Uma visita meio turística, meio mística, e com uma boa dose de trilheira, para matar a saudade das caminhadas pela Chapada dos Veadeiros.

Diz a lenda que no ano 880 foi encontrada lá, num local hoje conhecido como Santa Cueva, a imagem da Virgem de Montserrat. Anos depois, em 1025, ergueu-se o Monastério naquela espetacular fenda do maciço que se levanta a mais de 700 metros à direita do rio Llobregat.

Saí de trem de Barcelona numa manhã de sol, seguindo até a base do maciço, e lá tomei a cremallera que serpenteia ao redor das montanhas e nos leva até quase o topo.

Adivinhem qual foi a primeira coisa que fiz ao chegar lá em cima? Localizei uma trilha fantástica, no meio da mata que cobre a lateral de uma montanha!

Pelo caminho, me detive nos pequenos altares construídos ao longo da trilha por comunidades dos mais diversos pueblos em homenagem a suas santas padroeiras.

E não pude evitar o deslumbramento da paisagem que se descortina do lado oposto – o vale do Llobregat logo ali, a um pulinho, 750 metros abaixo de meus pés.

O silêncio foi meu companheiro durante toda a caminhada – os turistas se aglomeravam em outros pontos do que hoje é um grande e bem cuidado complexo turístico.

A tranquilidade aguçou meu olhar para as delicadezas do caminho – como essa lindeza da foto abaixo, que eu desconfio seja uma groselha, ou uma parente muito próxima. Na dúvida, preferi não provar…

Com a ajuda de um funicular e uma bela caminhada ladeira acima, cheguei ao topo de uma montanha ainda mais alta, a mil metros do nível do mar.

No final da trilha, entendi o que é solidão de verdade: a Ermida de San Juan, isolada, quase inatingível, confunde-se com uma paisagem pedregosa e remota, de onde se avista, muy lejos, quase toda a Cataluña.

A essa altura o domingo já estava no fim e ainda faltava visitar a Basílica…

Confesso que igrejas não são o meu forte em passeios turísticos, mas estava fora de cogitação não pedir a bênção à Virgem de Montserrat. Então, lá fui eu para a fila.

La Moreneta, como é popularmente conhecida, é uma bela madona negra, talhada no século XII à imagem e semelhança da lendária Virgem da Santa Cueva, e reverenciada por fiéis de vários países. Na mão direita ela sustenta o Mundo, e com a esquerda acaricia o Menino Jesus – que por sua vez abençoa os fiéis com a direita e, com a esquerda, segura uma pinha, símbolo de fecundidade e vida perene.

Depois do encontro em pessoa com La Moreneta, se você quiser, pode fazer suas orações na belíssima capela que fica às costas dela.

E na saída pode comprar uma vela e oferecê-la num dos muitos nichos reservados para isso.

La Moreneta integra o repertório religioso de diversas comunidades hispanoamericanas, graças a um antigo ermitão de Montserrat, Bernat Boil, que acompanhou Cristóvão Colombo na segunda viagem às Américas, em 1493, e foi nomeado o primeiro vigário das Índias Ocidentais, espalhando pelo Novo Mundo o culto à Virgem negra.

Mas a história do Monastério vai muito além da devoção religiosa. Nos séculos XVII e XVIII, tornou-se um importante centro cultural, referência na formação de músicos. Logo depois, em 1811, foi destruído pelas tropas de Napoleão.

Reconstruído, foi vítima da Guerra Civil Espanhola, entre 1936 e 1939, quando 23 monges morreram e os restantes tiveram que abandonar o Monastério. Salvou-se de nova destruição graças à proteção do Governo Autônomo da Cataluña.

Nos anos 70 do século passado, foi reduto de resistência à ditadura franquista: 300 intelectuais encerrados no Monastério reclamaram ao General Franco respeito aos Direitos Humanos.

Sobreviveu ainda a dois grandes incêndios que destruíram boa parte da floresta ao seu redor, em 1986 e 1994. Mas a natureza concedeu a Montserrat a dádiva da regeneração, o que eu pude conferir em detalhes na descida de teleférico sobre o vale do Llobregat.

Um domingo tão mágico e revigorante, física e espiritualmente, que nem reclamei do cansaço – e muito menos de ter que jogar fora as alpargatas, que voltaram imprestáveis.

Montserrat é, com certeza, um dos lugares mais encantadores da encantadora Cataluña. Saí de lá com a certeza de que voltarei. Um dia.

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Fotos Anamaria Rossi

Não sei bem como acontece. Chega um momento em que a gente sabe que é hora de voltar para casa. Não importa o que esteja acontecendo ao seu redor. Não importa tudo o que você poderia ter vivido e ainda não deu tempo de viver neste lugar que não é o seu. Se é festa lá fora, seu coração apertado de saudade te obriga a ficar colado na tela do computador em busca de sinais do seu mundo, aquele que é só seu.

Hoje acordei cinzenta como tem andado o céu por aqui. Mas meu coração morno explodiu em alegria quando comecei a assistir a transmissão ao vivo da abertura da Bovespa, comemorando o lançamento da maior operação de mercado do Mundo Mundial – a gigantesca oferta pública de ações da Petrobras do Pré-Sal.

Lá estava um pedaço enooooorme de mim! Do meu coração verde-amarelo, da minha história, dos meus sonhos e esperanças para o meu Brasil Brasileiro. Lá estavam algumas das pessoas mais queridas deste meu coração vagabundo. Amigos com os quais vivi e aprendi e sigo aprendendo muito da vida, da amizade, do amor em todas as suas formas. Lá estava eu, euzinha, inteira, ainda que sem corpo presente.

Nunca antes neste meu ano sabático tive tanta vontade de ter deixado esta viagem para depois. Eu queria estar lá! Sentir a alegria que sinto agora, mas junto com eles – a Mirian, o Alexandre, o Estrella, o  Duque, o Zé Eduardo, o Gabrielli. Morri de orgulho de todos eles, e de muitos mais que acreditam e trabalham duro e dão o melhor de si para que o Brasil seja cada vez mais o nosso Brasil Brasileiro.

Depois de um ano respirando a poeira do Velho Mundo, conversando com as pedras seculares das ruas e das paredes, me indignando com o que há de bolor e me contagiando com o frescor que insiste em renascer da velha História, só o que desejo agora é voltar para casa. Para a minha doce Terra Brasilis. Lá onde bate meu coração a mil badaladas por segundo, onde tudo está por ser feito, criado, inventado e reinventado por nós. Onde a gente é a minha gente.

Bueno, enquanto o dia não chega… vou ali aproveitar um pouquinho da Fiesta de la Mercè, a grande festa anual dos barceloneses. Porque, afinal, a vida é agora!

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Quando inventei este blog a idéia era simples: escrever, escrever, escrever… e, de quebra, manter por perto os amigos queridos enquanto estou longe. Nunca imaginei que as ondas virtuais pudessem me trazer tantos novos amigos – como mapas do tesouro que estão por aí navegando em garrafas pelos oceanos.

E numa dessas garrafas, movida pelos ventos desde o Atlântico até o Mediterrâneo, aportaram aqui esta manhã Hélio e Mara, do MaraCatu Blog. Ele paraibano, ela carioca, um casal pra lá de simpático – e muito, muito aventureiro.

Fotógrafo e webdesigner, Hélio me encontrou no Blog do Noblat e nos tornamos amigos de Facebook. Roteiro mais virtual impossível. Ao visitar o blog dele, descobri um novo mundo – o mundo dos que vivem num barco e cujas estradas da vida são líquidas e sem fronteiras.

Fiquei espiando de longe, durante meses, as aventuras de Hélio e Mara pelos oceanos. Até que, dia desses, ele me mandou uma mensagem como faria um velho amigo não virtual: “Ana, você ainda está em Barcelona? Estamos chegando aí.”

Deixou um telefone, eu liguei. Marcamos um encontro no Mercado de la Boquería na hora do almoço. “Como eu vou te reconhecer, Hélio? Nunca nos vimos!” Ele: “Estou usando uma camiseta branca de Abrolhos”.

Hélio e Mara no Kiosko Universal, na Boquería, depois de limparmos os pratos

Impossível não reconhecer Hélio e Mara mesmo sem nunca tê-los visto: eles são a imagem da simpatia! Me receberam com um abraço apertado, pedimos logo um pulpo a la gallega e umas verduras a la plancha e engatamos uma conversa de velhos amigos ali no Kiosko Universal.

Me contaram que vivem há anos no barco que eles mesmos construíram, com porto seguro em Angra e todo um mundo por velejar. “É muito mais barato e divertido que morar numa casa!”, diz Mara, lembrando que os dois já se aposentaram e velejam desde a juventude.

Aportaram na costa espanhola depois de uma travessia, no mínimo, emocionante – que Hélio conta em detalhes lá no blog dele – obedecendo os ventos desde Angra até a Catalunha.

Por essas e outras eu acho que foi uma boa idéia ter saído um pouco da terra firme e empreendido essa modesta viagem pelas ondas da web. O mundo é grande demais e tem tesouros demais escondidos, então por que não dar uma chance às garrafinhas que, vira e mexe, querem chegar à nossa praia?

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Fotos Anamaria Rossi

Se eu tivesse que dizer em uma palavra como ficou marcada em minha retina a breve passagem por Cadaqués, esta palavra seria LUZ. Desde a brancura das casas ao brilho do sol nas águas do fim da tarde, tudo na cidade onde Salvador Dali viveu (e dizem que ali também enlouqueceu) irradia luminosidade.

Cadaqués é um pueblo pesqueiro quase no fim da Costa Brava, hoje transformado em destino de turistas descolados, que abriga lojinhas e ateliês charmosíssimos, em total sintonia com as ruas estreitas de pedra sobre pedra.

Atração à parte em nossa passagem foi o Fusca descapotable (adoro esta palavra!) preparado para receber os noivos que saíam da igrejinha em frente, lá no alto de uma montanha de pedra.

Mas a grande atração da cidade é a Casa de Dali, transformada em museu, em Portlligat, a poucos quilômetros do centro, “assinada” com os inconfundíveis huevos do artista sobre o telhado.

Chegamos sem tempo hábil para visitar o museu, mas isso não nos impediu de curtir a bela paisagem do fim da tarde.

Mais cedo, poderíamos ter dado uma volta no barco Gala, o amarelo aí de cima, mas nos contentamos em apreciar em terra firme a arquitetura das casas da região, especializada em disfarçar as construções nos paredões de pedra.

Antes de o sol se esconder de todo, subimos a serra cruzando os olivais em direção a Figueres, esta sim a cidade de Dali, onde ele nasceu e para onde voltou com pompa e circunstância.

Escolheu nada menos que um antigo e suntuoso teatro para instalar seu museu (no qual também não entramos desta vez), e instalou no alto das torres uma impressionante coleção de ovos.

Dizem que os relevos que decoram as paredes externas do museu são simpáticos cocozinhos dalinianos. Não consegui checar a informação, mas – por si acaso – Tomás não perdeu a chance de fazer uma palhaçada.

E aqui termina a temporada de verão, com um vento fresco já anunciando que o outono vem aí e me lembrando de que está chegando a hora de voltar ao meu querido Patropi.

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Fotos Anamaria Rossi

Desta vez não tive como escapar de Portbou. Estava bem ali, a 15 minutos de carro de Llançà, na fronteira com a França, e Tomás queria ir àquela praia que tem uma plataforma flutuante bem no meio da água.

Pedro já tinha me avisado que eu ia adorar. E adorei! A começar pelo caminho, uma descoberta a cada curva, um novo horizonte em cada mirante.

Fiquei tão passada que desandei a fotografar e filmar, e quase esqueci que eu só tinha levado a nova Cyber-shot fúcsia (!), com UM cartão e UMA bateria (a Nikon de responsa está temporariamente aposentada, até eu voltar ao Brasil e submeter sua lente a uma bela faxina).

Foto Angélica Padovani

Mas com a Cyber-shot, como sempre, a gente faz qualquer negócio – e nada mais apropriado a uma turnê “mochilinha” que uma “câmerazinha”, não é mesmo?

Depois de uma praiazinha de água gelada, fomos buscar um de-comer ali na Rambla de Cataluña. Foi lá que uma senhorinha muito simpática, ao me ver fotografando, disse:

– É muito bonito, não acha? Você precisa ver no outono. Ano passado teve um vento tão forte que todas as folhas caíram, e o chão ficou coberto por um lindo tapete esverdeado. Eu, que vivo aqui há 73 anos, nunca tinha visto nada igual!

Achamos o de-comer e o de-beber, uma sangria sanguínea, refrescante e deliciosa. Fiquei com pena do Tomás, que teve que se contentar com uma Fanta Laranja…

Na noite anterior, tínhamos visitado Portbou rapidamente, e fomos surpreendidos por gigantescos grafites com figuras femininas espalhados pela cidade. Não consegui saber a que se devem, mas achei o máximo!

Aliás, o máximo é a cidade inteira, desde a vista lá de cima até a estação de trem, sem esquecer, é claro, do azul profundo do céu em noite de poucas luzes.

Pedro tinha razão: Portbou é imperdível!  Ainda bem que deu tempo.

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Chiquinho, Tomás e Angélica em frente ao castelo (por Anamaria Rossi)

A previsão do tempo indicava uma quinta-feira chuvosa em Llançà, então cedemos – sem nenhum sacrifício – ao desejo da Angélica de ir à França. Duas horas de carro e estávamos em Carcassonne, uma cidade medieval totalmente preservada, com muralha e tudo, e lá dentro um castelo com direito a fosso de crocodilos.

A cidade medieval foi transformada num shopping center a céu aberto: não se paga para entrar, mas a quantidade de tentações para deixar ali o saldo do cartão de crédito é incrível!

Fotos Anamaria Rossi

É assim em vários lugares de valor histórico por onde passei nessas andanças: os recursos para a preservação do sítio são obtidos por meio do comércio de seus espaços, de forma ordenada e consciente.

Não me agrada especialmente, mas entre um shopping medieval e não poder visitar Carcassonne, eu saco meu Mastercard.

Cada vez mais sinto que o velho e o novo estão condenados a viver lado a lado, como aquele ponto de intersecção entre as estações, o verão terminando, o outono começando…

E, no fim de cada estrada, longa ou curta, descubro no passado que o futuro está logo ali, é só abrir os olhos e estender a mão.

Foto Chiquinho Amaral

Pues que venga!

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Fotos Anamaria Rossi

Mochileiro é assim: não desiste nunca!

Teca se foi – mas Angélica, Chiquinho e Tomás estavam me esperando na Costa Brava, o magnífico trecho de litoral entre Barcelona e o sul da França. E lá fui eu. De trem, com uma mochilinha nas costas e uma mala de rodinhas, claro.

A primeira coisa que Angélica me aprontou foi me fazer subir a montanha. Tá certo, era uma montanhazinha de nada, que eu só subi mancando por causa da lombalgia pós-Vespa. E valeu a pena!

Llançà é um antigo porto de pescadores dotado de uma infinidade de calas (pequenas enseadas no pé de altas pedreiras). Nas calas ou mesmo nas praias, areia é o que não há. Estende-se a esteira sobre pedriscos cor de chumbo e usa-se uma sapatilha com solado de borracha para entrar na água sem furar os pés.

Mas o que falta em areia sobra em lindeza de recortes, com água cristalina em vários tons de azul. E se os pedriscos não são nada convidativos, a cidade e o porto recebem muito bem os forasteiros, com pracinhas e recantos para o desfrute amplo e geral.

Echar una siesta deitada no banco da praça ou instalado na jangada-escultura, como fez Tomás, é tão natural quanto sair pela praia de calçola florida ou maiô listrado.

Mas o melhor de tudo é caminhar no fim da tarde pelo porto de Llançà, vendo chegar os barcos de pesca e apreciando os casais maduros que saem para passear em pequenas embarcações familiares.

Se eu vivesse em Llançà, minha casa seria um barco.

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