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Texto José Rezende Jr. / Foto Anamaria Rossi

Foi assim que chegou na minha caixa postal:

“Quero agradecer as rezas, as novenas, as correntes de oração, os despachos, os dedos cruzados, as energias positivas, as torcidas atéias e agnósticas. Quero agradecer a todos vocês, que me honram com seu tempo, sua atenção, seu carinho. Sem vocês, meus queridos macroleitores, o que seria deste microescritor? Então, faço questão de dizer bem alto: “O JABUTI É NOSSO!!!

Valeu, gente!

José Rezende Jr.”

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Como assim, ganhar o Jabuti concorrendo com Milton Hatoum (A Cidade Ilhada), Moacyr Scliar (Histórias que os jornais não contam), Roberto Damatta (Crônicas da Vida e da Morte)?

Só o Rezende mesmo! Com Eu perguntei pro velho se ele queria morrer (e outras histórias de amor), esse mineirinho simpático e surpreendente arrebatou o maior prêmio da literatura brasileira na categoria Contos e Crônicas.

Que ele é um grande jornalista, eu já sabia há muito tempo. Mas que é um grande escritor, descobri faz alguns meses, quando esbarrei por acaso no site do Rezende, baixei um de seus livros e não consegui mais parar de ler!

O resultado completo da 52a. edição do Prêmio Jabuti está aqui. O nome do Rezende está nesta lista aqui.

E eu estou feliz demais da conta!

Parabéns, Rezende! Que o Jabuti leve suas histórias até os confins desse mundão!

Fotos Anamaria Rossi

Ainda me lembro do primeiro dia de aula, quando todos pararam para olhar aquela aluna estranhíssima que chegava atrasada, metida num tropicalíssimo vestido florido de mangas largas. Eu era apenas uma estrangeira, de três, numa turma de catalães típicos, que só falam catalão entre si e não dão muita trela para estranhos.

Resisti bravamente. E valeu a pena! Hoje foi nossa Aula de Formatura e saí de lá com o terceiro diploma de mi vida: Pastelera!

Aula de Formatura, sim, porque nós mesmos preparamos os quitutes, montamos a mesa e fizemos a festa. Com direito a muito Cava, claro.

Não, vocês não estão vendo mal: essas delícias aí de cima são espetinhos crocantes de camarão, rebozados com ingredientes tão estranhos como arroz verde, farelo de milho torrado e pan rallado turbinado com glucosa.

Nunca imaginaram isso numa aula de doces, certo? Pois nem eu. Foi uma espécie de preview do curso avançado de Pastelería, quando se aprende a aplicar na confecção de pratos salgados as delicadas técnicas da repostería.

Algo como confeccionar delícias salgadas que, tal qual os doces, comeremos antes com os olhos. Como os delicados samosas, feitos com massa de rolinho primavera e recheio de legumes salteados com espécies orientais.

Não sei se houve uma reserva especial de humor para a derradeira aula, mas estavam todos tão sociáveis e divertidos que me deu até pena de ir embora…

Preparamos também um canapé que é uma miniatura de torta tatin. Sobre uma base de massa folhada, assada separadamente, encaixamos rodelas de maçã assadas com caramelo em pó, e o toque final e salgadinho fica por conta de um pedacinho de foie salteado na hora.

Antes mesmo de saltear o foie, Carmem já tinha ajeitado todas as mini-tatins na bandeja do banquete…

Preparamos também madalenas salgadas, em forminhas de brigadeiro pequenas, com três recheios diferentes: sobrasada (embutido pastoso típico de Mallorca, à base de carne e gordura de porco, pimenta negra e muita páprica picante); olivada (pasta de azeitonas negras com azeite e, às vezes, anchovas) e  queijo tupí (queijo cremoso curado e temperado com aguardente, de sabor forte e persistente, produzido nos Pirineus Catalães).

Na foto acima, os copinhos onde serão apresentados os espetinhos de camarão recebem una salsa caliente de queijo parmesão.

Tudo pronto, só falta o acabamento de foie sobre as tortinhas de maçã!

A ordem era atacar, mas quem tinha coragem de desmontar aquela belezura toda antes de, pelo menos, tirar uma foto?

E aqui o registro dos dois troféus do dia: o diploma e o curativo no dedo, vítima da faca afiadíssima enquanto picava legumes para o samosa

Bueno… Como tudo começa e termina em Madalena, encerro a sessão Doñana com as deliciosas e facílimas…

MADALENAS PARA APERITIVO

  • 60 g de açúcar
  • 2 ovos
  • 100 g de farinha de trigo
  • 6 g de pó Royal
  • 100 g de manteiga derretida e esfriada
  1. Bata bem os ovos com o açúcar.
  2. Acrescente a farinha peneirada com o pó Royal e misture delicadamente.
  3. Incorpore a manteiga derretida sem bater.
  4. “Tempere” a massa, ou partes dela, com o que lhe apetecer, de preferência ingredientes salgados, pastosos e de sabor pronunciado.
  5. Cubra a massa com filme e deixe repousar na geladeira por pelo menos uma hora.
  6. Encha forminhas de brigadeiro até quase a boca e leve ao forno pré-aquecido (210 graus) por poucos minutos, até que as madalenas estejam crescidas e cozidas (faça o teste do palito).

OBS: Apesar de levar açúcar, a massa não fica exatamente doce, principalmente se o ingrediente escolhido para dar sabor for bem salgadinho. Não se aconselha reduzir a quantidade de açúcar da massa, isso mudará totalmente sua textura.

Bon profit!

* Por incrível que pareça, a festa de formatura dos doceiros não teve sobremesa…

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Fotos Anamaria Rossi

Semana passada fui visitar duas bodegas de Cava, o vinho espumoso com DOC (Denominação de Origem Controlada) da Cataluña. O Cava está para a Espanha como o Champagne para a França. Não são iguais, embora sejam ambos vinhos espumosos. Provêm de uvas distintas e passam por processos e etapas de produção bem diferentes. Para um neófito, podem parecer a mesma coisa, mas um bom conhecedor sabe a diferença – como também sabe que são diferentes o excelente espumante brasileiro e o famoso Prosecco italiano.

A generosíssima Patu já havia me levado a Sant Sadurní D’Anoia para conhecer o Instituto do Cava, que entre outras coisas trabalha duro para criar mercado para o seu produto no Brasil.  Sant Sadurní é a Capital do Cava. Fica no meio das montanhas do Alt Penedés, cercada de vinhedos por todos os lados, e cheia de cuevas, as cavas, nos subterrâneos. Ali se produz 90% de todo o Cava espanhol.

Ainda me faltava conhecer as bodegas e ver, ao vivo, como é feito este vinho que se tornou minha mais nova e perene paixão. A idéia era ter voltado a Sant Sadurní a tempo de contar essa história numa Carta de Barcelona, mas não deu. Uma pena. Porque é uma verdadeira Viagem ao Centro da Terra!

O Instituto do Cava, sabedor do meu interesse inclusive como provável futura compradora no Brasil, agendou visitas a duas bodegas já devidamente representadas e distribuídas em terras brasileiras, Freixenet e Gramona. Recepção de luxo e altamente profissional em ambas, com direito a degustação no final!

O Grupo Freixenet é o maior produtor de Cava do Mundo Mundial, a milhas e milhas de distância dos demais, e seus diversos rótulos chegam a todas as partes do mundo. É provavelmente o Cava mais conhecido no Brasil, e o mais consumido.

A visita compreende a cava antiga, onde ainda se produzem umas poucas variedades de Cava de forma artesanal, e a nova e gigantesca área de produção, totalmente automatizada, dotada de laboratório para o cultivo de leveduras patenteadas e tanques de fermentação que me fizeram lembrar dos tempos da Petrobras.

Como qualquer produto designado ao grande mercado consumidor, os Cavas Freixenet tem como marca registrada a constância. Você pode abrir uma garrafa de Cordon Negro, Cordon Rosado ou Carta Nevada em qualquer parte do mundo e sentirá o mesmo sabor. Este é o objetivo e ao mesmo tempo um importante fator de êxito da empresa. Para quem pede mais, o grupo oferece alguns rótulos de maior delicadeza e menor escala, como o Reserva Real, que infelizmente só está no mercado espanhol.

Bem diversa é a filosofia da Gramona, produtora dos chamados Cavas de alta gama. Embora o processo de produção seja moderno e bastante automatizado, alguns rótulos recebem cuidados tão especiais que chegam a ter as garrafas embaladas manualmente em celofane para chegarem intactas ao destino.

Boa parcela dos Cavas Gramona ainda são produzidos na cava antiga, quatro andares dentro da terra que sustenta o edifício administrativo no centro de Sant Sadurní. Pode-se dizer que, embora não seja exatamente uma produção em pequena escala, o processo mantido por esta bodega ainda é, em certa medida, artesanal.

Descer as escadas úmidas e penetrar nas cuevas escuras e centenárias é uma experiência indescritível! Fotografar é quase impossível. Os vinhos, ali, repousam de quatro a cinco anos na mais absoluta escuridão – tempo que a levedura leva para forjar sabores igualmente indescritíveis, e as garrafas são cobertas pela poeira fina da maturação.

Até os anos 80, a Gramona manteve uma unidade de produção no Brasil, mais precisamente em Jundiaí, e chegava às gôndolas sob o rótulo Gramond. Hoje a produção é exclusivamente catalã. Allegro, Imperial e III Lustros são três dos rótulos atualmente distribuídos no Brasil. Todos di-vi-nos!

Ai, acho que eu vou ter que montar um café só para poder colocar essas delícias no cardápio…

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The Milkmaid, Jan Vermeer

Eu sei que eu não deveria ficar aqui contando tantas intimidades, mas é que realmente a Semana da Reciclagem na geladeira aqui de casa está me saindo uma belezura!

Hoje eu comecei pelo congelador: o penúltimo dos moicanos era um potinho de molho à bolonhesa home made by myself. Uma bolonhesa nada original, porque a carne moída que encontrei naquele longínquo dia da confecção do molho não era apenas uma carne moída, era um preparado para alguma coisa que já vinha com um pouco de amido misturado. Mas o sabor do tomate bem cozido, com cebola, alho, azeite de oliva e um buquê de ervas, me ajudou a superar o trauma da desagradável textura da carne.

No segundo passo, ao abrir a porta inferior da geladeira, dei de cara com a bandeja de frios: zero jamón, miles de quesos! E, confesso, pouca coisa além disso nas prateleiras vizinhas, a não ser por algumas frutas e legumes que, definitivamente, eu não estava a fim de comer num dia tão friorento.

Automaticamente as palavras “bolonhesa” e “queijo” combinaram-se em meu Sistema de Busca Interior, que para minha alegria acendeu o alerta laranja do armário: ***massa de canelone disponível***.

Antes que eu tivesse tempo de contar as calorias da bomba que daria à luz em poucos minutos, os apetrechos já estavam alinhados sobre a pia, e duas panelas com água, sal e azeite já começavam a borbulhar no fogão.

Nos 15 minutos que a pasta levou para cozinhar, preparei uma béchamel bem enxutinha, com farinha de trigo, manteiga, leite, noz moscada e uma pitada de sal, e dividi em três partes. À primeira juntei pedacinhos de queso azul; à segunda, um pouco de brie desmanchado (brie é incrivelmente barato aqui na Espanha); à terceira, um pouco de emmental ralado e uns pedacinhos de queijo fresco.

Para dar mais consistência à béchamel, dividi entre os três potinhos as duas fatias de mussarela magra que me restavam (eu sei que deveria ter pensado em algo menos gorduroso, mas o fato é que eu queria acabar com aqueles queijos todos…).

Esfriei um pouco os cremes de queijo, para dar-lhes textura de recheio, montei os canelones alternando os sabores, cobri com a bolonhesa borbulhante e levei ao forno para gratinar com um pouquinho de grana padano ralado.

Feitas as contas, temos aí nada menos que seis queijos, o que é um exagero evidente, só permitido em situações extremas de Reciclagem de Restinhos em Véspera de Mudança.

A parte ruim de tudo isso foi que o restinho de vinho branco que descansava na geladeira não pode ser incorporado ao banquete, estava quase virando vinagre.

A parte boa é que sobrou metade da forma de Cannelloni Tutti Formaggi para o jantar…

Foto Anamaria Rossi

Na festa de formatura, eu e Jesus, meu primeiro parceiro nas aulas de cozinha, exibimos orgulhosos nossos diplomas

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Pose nada clássica com Loreto, que roubou o lugar de Jesus e foi uma grande parceira

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Fazendo charme ao lado do chef Lluis Rovira, queridíssimo e competentíssimo!

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Lluis abriu os trabalhos com uma bela festa, quitutes mil e, claro, muito Cava

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O segundo turno da festa foi em um bar de tapas em frente à escola

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Alícia tenta captar a borrachera de Paloma e Loreto no bar dos argentinos, terceira parada na ronda comemorativa

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Loreto, com o ar tropical das Canárias, e Alícia, cheia de ginga catalana-andaluza

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Como achamos pouco, las cuatro guapas borrachas partimos para a quarta etapa

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Alícia e sua amiga e parceira de cozinha, a guapísima e querida galega Paloma

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A dupla mais dinâmica do Mundo Mundial: Doñana e Lore, depois dos mojitos finais

E aqui termina a história de um de recomeço – e começa outra, ainda por viver e contar.

Anamaria Rossi, Jornalista e Cozinheira.

… Entramos na penúltima semana de atividades deste modestíssimo blog com a marca de 40 mil cliques!

Foto Anamaria Rossi

Muchísimas gracias a todos!!!

Fotos Anamaria Rossi

Véspera de viagem é sempre assim: a gente começa a esvaziar os potinhos com delícias sobrantes que se multiplicam como coelhos na geladeira. E quando a viagem que se avizinha é longa e sem volta, a fúria recicladora estende-se a todos os desvãos do armário.

Tudo começou porque eu não queria de jeito nenhum jogar fora o que sobrou do creme de pralinê e limão usado nas tartaletes do aniversário da Patu. Porque, além de ser um desperdício absurdo, estava di-vi-no!

O vento frio que entrava pela porta da varanda foi o pretexto que faltava: esquentar a casa é preciso, e o que pode ser melhor que um forno aceso? Então, vamos ao bolo do dia!

No armário encontrei restinhos de amêndoas moídas, chocolate em pó e açúcar moreno. Abri a geladeira e constatei feliz que havia dois ovos. Pronto, está feito!

BOLINHOS BYE BYE

  • Bata bem: 2 gemas, 2 colheres de manteiga (temperatura ambiente) e 2 xícaras de açúcar moreno.
  • Acrescente: 1 xícara de chocolate em pó, 1 xícara de amêndoas moídas, 1 xícara de farinha de trigo e 1 pitada de sal.
  • Depois de bem misturado, junte aos poucos 1 xícara de leite (temperatura ambiente) e misture vigorosamente.
  • Por fim, adicione delicadamente, mexendo com uma espátula em movimentos circulares de baixo para cima, 2 claras em neve e 1/2 colher (sopa) de pó Royal.
  • Unte 12 forminhas de cupcake (ou forre com forminhas de papel) e preencha-as com massa até 3/4 da altura.
  • Leve ao forno pré-aquecido a 220 graus por 10 minutos; se os bolinhos tiverem crescido bem, baixe a temperatura para 180 graus e deixe mais 5 minutos ou até que eles estejam assados (faça o teste do palito).

O creme de pralinê é um tanto complicado para uma receita tão simples, e como se trata de uma reciclagem sugiro que você use como acabamento aquela sua cobertura de chocolate básica. Na falta dela, use um brigadeiro mole ou um chocolate tipo cobertura derretido, despejado ainda quente sobre o bolo muuuito gelado. Para arrematar, você pode polvilhar amêndoas moídas ou raladas e dar um toque de charme.

E como domingo é dia de ser feliz, e o forno já estava quente, aproveitei para assar uns pães de queijo que fiz para esperar Felipe. Já que ele está demorando…