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Fotos Felipe Rossi Morgan

É claro que eu tinha que inventar uma farofa à brasileira num domingão natalino, mesmo estando a léguas de uma boa farinha de mandioca. Senão eu não me chamaria Anamaria Rossi e não seria essa aprendiz de cozinheira metida a besta.

Por falta de mandioca o domingo não ficaria sem farofa. Além da manioc flour comprada no Latino lá perto de casa, em Barcelona, encontrei yuca (a mandioca colombiana) no Carrefour aqui do pueblo.

E se preciso fosse eu mesma confeccionaria a farinha, pois essa parte da farofa eu aprendi a fazer há 13 anos, com os quilombolas lá do Rio das Rãs, na Bahia.

Mas não foi preciso. Fiz a farofa com a yoki e um tira-gosto com a yuca.

O problema é que eu queria sair do arroz-com-feijão (neste caso, arroz-sem-feijão). Em outras palavras, queria inventar moda. Mas e o medo de dar vexame na casa da sogra do Felipe, que segundo ele faz “a melhor paella de todos os tempos”? Para invadir a cozinha de Carmem eu precisava de um bom apoio. No mínimo apoio moral, mas de preferência umas boas receitas.

Fui salva por Dom Francisco! O livro que tem a receita da melhor farofa de todos os tempos estava, por acaso, em minha bagagem. Chegou a Barcelona, na caixa enviada por Andréa, poucas horas antes de eu fechar a mala para Madri. Acabou entrando no pacote, junto com 1 kg de polvilho azedo, 1 kg de farinha de mandioca crua e meia centena de bombons de ameixa (receita de Dona Nô), embrulhadinhos em celofane verde.

Pois a farofa de ovos do Francisco foi a estrela da mesa na casa de Carmem e Fernando neste domingo chuvoso em El Casar de Talamanca, Guadalajara, Castilla de la Mancha, España, Europa, Mundo Mundial. Bem do ladinho do arroz de brócolis. E da mandioca frita, que ninguém é de ferro. O salmão assado, coitado, nem coube na mesa. Ficou na bancada ao lado, na própria assadeira, como um reles coadjuvante.

Naturalmente que a aprendiz aqui não atingiu a excelência de Dom Francisco Ansiliero, muito longe disso. Mas, pelo silêncio que reinou à mesa e pelas colheradas de “só mais um pouquinho” disso e daquilo, acho que o Brasil não fez feio, não.

Não vou dizer que não houve reclamações. Houve. Na verdade, uma só reclamação, repetida por todos ao final do almoço – para alegria da cozinheira: “Hummm, acho que comi demais…”

Madri arde. De longe ou de perto.

Fotos Anamaria Rossi

Foto: Irene Gutiérrez

Dez anos depois do meu primeiro Natal em Madri, na casa de Sandra, Juliano e Bernardo, vivo minha segunda Navidad española, num pueblo gelado perto da capital, ignorando o inverno lá fora e aquecendo o coração com um abraço familiar. Porque aqui, ali ou acolá, o único ingrediente que não pode faltar na Festa de Navidad é o calor humano.

É sobre isso a Carta de Barcelona de hoje, que você pode ler aqui ou lá no Blog do Noblat.

Mais detalhes da festa no post aí de baixo.

Breve registro de la Noche Buena na casa de Carmem e Fernando, no pueblo El Casar de Talamanca, divisa entre Madri e Guadalajara, com temperatura exterior quase negativa mas um calor humano que nos aqueceu o coração.

A FESTA

Felipe e Irene na dianteira

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OS PREPARATIVOS

Ai, as mulheres...

Carmem prepara as delícias

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AS COMIDINHAS

Um festival de pescados, folhados e embutidos. E isso foi só o começo...

Cochinillo e Rioja: as estrelas da mesa

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O ABRAÇO

Carinho de filho, o melhor presente.

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FELIZ NATAL!

Fotos Anamaria Rossi

Doñana ainda estava assustada com o pesadelo quando me ligou esta manhã. Arfava como quem acaba de correr duas léguas, como se todo o oxigênio do mundo fosse pouco.

- O cachecol! O cachecol de tagliatelle! Está vivo!

- Calma, Doñana, tome um café forte e me ligue em seguida.

Ela estava acordada, mas não estava. Tinha aberto os olhos, é verdade, mas neles ainda via a sequência final do sonho, congelada na cena mais aterrorizante. Tentava dar andamento ao filme, chegar ao desfecho, mas o congelamento era irreversível: o cachecol, que antes era de lã, agora era um maço de tagliatelle que apertava seu pescoço querendo esganar a pobre. Doñana suava em bicas, ignorando os seis graus da madrugada.

Não tive coragem de deixar minha amiga sozinha com seu pesadelo, liguei de volta antes que ela tomasse o café. Ela atendeu ainda na cama, hipnotizada pela cena. Tinha arrancado o pijama e tentava livrar-se de qualquer coisa que chegasse perto de seu pescoço.

- Mais calma, Doñana?

- Como diabo esses tagliatelles vieram parar no meu sonho? E o pior é que estão lambuzados de carbonara!

Dez minutos repassando as cenas e Doñana já estava apta para a leitura do pesadelo.

- Na verdade, saí sufocada da aula de ontem. Sufocada e com frio.

A aula de ontem era para ser “a aula dos sonhos” de Doñana. Enfim uma pasta! Enfim uma receita universalmente conhecida na cozinha de sua casa! Enfim alguma coisa que não levava um milhão de ovos e litros de azeite! Enfim uma comida de verdade – e que Doñana jurava que faria com perfeição quase absoluta.

Mas não foi o que aconteceu. Até o momento da cata, tudo ia muito bem. Nossa amiga amassou a pasta, abriu a massa no cilindro, cortou os tagliatelles, preparou uma salsa carbonara de primeira e arrematou com a gema de ovo crua sobre o monte divino. Tudo lindo e perfeito. Até que…

Bueno, a primeira coisa que o chef fez foi misturar a gema, dando um aspecto amarelo claro ao conjunto. “Quando faço isso, também estou testando a consistência da pasta”, avisou. Na segunda misturada do chef, o mundo de Doñana veio abaixo: seus tagliatelles se rompiam como massinha de modelar.

O chef deu aquela olhadinha e perguntou: “Você sabe por que se rompem?” Ela sabia, o que piorava muito sua situação. A massa estava cozida além do ponto – erro inadmissível para nossa amiga!

- Pero, chef, não deixei nem 2 minutos na água fervente!

Com aquela cara de sádico que ele adora fazer na hora de provar os pratos dos aprendizes, o chef chamou todos para testemunharem o desastre de Doñana. “Quero que todos provem e vejam: a massa está passada do ponto de cocção.”

Fosse uma tortilla, uma quiche, um filé a qualquer coisa ou até uma feijoada, Doñana não teria dado a mínima para o vexame. Mas uma pasta? Ah, não, errar uma pasta era demais para ela.

Engoliu em seco e ficou esperando para ver a cara dos colegas.

- Menos mal, amiga, que eles gostaram do meu molho, inclusive o chef.

- O chef gostou? Então é porque o molho estava bom mesmo.

- E de que me adianta um molho bom numa pasta mole?

Doñana não perdoa – nem a si mesma.

Saiu de lá arrasada. Pouco importava que to-das as pastas da aula tivessem saído mal – umas porque foram mal amassadas, outras porque cozinharam demais ou de menos, e algumas porque tinham tanto molho que se desmancharam num lamaçal de carbonara. Doñana não queria saber dos outros. Ninguém ali tinha seu sangue italiano. Ninguém ali tinha visto a mãe fazer pasta desde o berço. Todos podiam errar, ela não.

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Não se faz pasta sem quebrar os ovos...

Acordada do pesadelo, Doñana tomou duas decisões importantes para arrancar do pescoço o asfixiante cachecol de tagliatelle: 1) Seu presente de Natal para si mesma será um cilindro de abrir massa, para treinar e treinar e treinar até atingir a perfeição. 2) Voltará a tomar uma cápsula de Valeriana antes de dormir. Talvez duas.

Pode vir quente que eu estou fervendo.

Tóbi, meu mascote de rodinhas, quer ficar bonito para a chegada da estação.

Com que roupa?

Boina clássica...

... ou boné de brechó?

Já sei, faltou o termômetro...

Como é que a gente explica isso em catalão?

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